Tem Horas?

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– Com licença, tem horas? – Disse ele, tocando-lhe gentilmente o ombro esquerdo.

Sobressaltada, tirou os fones de ouvido. – Desculpe?!

– Eu perguntei se você tem horas?

Tirou o telefone do bolso da calça.

– Dez para as três.

– Obrigado.

– Por nada. – Aproveitou e deu uma olhada rápida nas atualizações do face e o guardou novamente no bolso do jeans. – Por que?

Por um instante pensou que não era com ele.

– Como assim? – Disse ele empertigando-se no acento.

– Você perguntou as horas, por quê?

Dobrara o jornal sobre o colo.

– Não entendi ainda.

– Você perguntou as horas. Eu disse dez para as três da tarde – na verdade já era cinco para as três. – Você disse obrigado e eu disse de nada.

– Sim, você disse.

– Então?

– Então o que?

– Por que perguntou?

Ele sorriu meio desajeitado e olhou para os lados. Achava que aquilo só podia ser uma das pegadinhas do Silvio, ou algo do tipo. Tinha curiosidade para saber se as pessoas que caiam naquelas coisas ganhavam algum tipo de cachê ou algo do tipo para passar tamanho ridículo. Andava meio duro aqueles dias.

– Bem, eu não sei…

– Você não sabe e perguntou as horas só por perguntar?

– Não… quero dizer, perguntei porque queria saber, só isso, vi que você tinha um relógio e só perguntei… ahn, tô esperando o trem, só isso.

– Eu também tô esperando o trem.

– Legal.

– Pois é.

– Pois é.

Ela meio que ficou ali parada olhando as pessoas que passavam. Ele não sabia o que fora aquilo mas resolveu deixar para lá. Abriu o jornal no caderno dois e começou a ler o horoscopo.

– Por que está esperando o trem?

– Não entendi, moça.

– Por que você está esperando o trem?

Novamente olhou em torno. Não havia sinal nenhum de câmeras. Aquela maluquice parecia coisa séria.

– Eu… ahn, estou indo para casa… tô esperando o trem sentido central…

– Sim, você disse isto. Mas por que Freddy?

Aquilo o assustou profundamente.

– Como você sabe o meu nome?

Ela deu uma tapinha de leve no crachá pendurado no pescoço dele. Sentiu-se um idiota. Ela sacou do bolso o telefone e deu um suspiro dramático.

– Três e dez.

– Tenho de ir. – Disse ele ao se levantar as pressas.

– Entendo.

– O que você entende?

– Que você tem de ir.

– Como assim?

Ela ficou de pé, meio que ignorando a pergunta dele, tirou os fones de ouvido e guardou junto do celular no bolso do jeans.

– Também tenho de ir.

– Para onde?

Ela parecia surpresa com a pergunta.

– Por que quer saber?

Aquilo meio que o deixou maluco.

– Porque sim.

Ela deu um risinho – Porque sim não é resposta. Ele quis esganar ela ali mesmo, na frente de todos.

O trem parrou na plataforma sem que ele percebesse. Ela entrou e abraçou a barra no meio do vagão lotado. Aquilo não fazia sentido. Ele já estava atrasado. O trem da central estava chegando do outro lado da plataforma. Aquele ali era sentido Santa Cruz. “Ah, que se foda! ”.

Antes do último sinal do fechamento das portas ele saltou para dentro e se agarrou na barra para não cair com o arranque da máquina. Agora percebia que ela era morena, tinha olhos castanhos claros e lembrava muito alguém que não conseguia se lembrar, mas que gostava muito.

– Vai perder o seu trem.

– Eu sei. – Disse ele tentando evitar um contato direto com aqueles olhos.

– Por que? – Outra pergunta, mas que o fez rir um pouco.

Por um segundo não soube o que dizer, mas disse.

– Eu não sei.

Mas sabia sim.

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