Vira-Latas

Vamos falar sobre desejos.

Eventualmente encontro alguém que nutre profundamente o instinto materno quanto o pai que brinca com o filho num banco de praça esquecendo-se do resto do mundo que o observa. Tantos homens quanto mulheres desejam ser pais. Digo até ser isto algo comovente.

Mas muito também indago sobre essa vontade.

As respostas costumam ser as mesmas. “quero dar todo o meu carinho a alguém”. “Quero ter alguém para transmitir o que aprendi”. “Quero cuidar de alguém”. “Quero alguém que valha a pena”. Infinitas são as respostas, nenhuma me convence “ser amor o que deveras sentes”, diria o poeta.

Todos temos o nosso motivo mesquinho quando surge aquele “desejo” de ter algum pequeno individuo correndo pela casa usando fraudas chamando-nos de papai/mamãe. Porém, só isso não seria assunto suficiente para me fazer colar a bunda na cadeira e dedicar algum tempo escrevendo sobre. Afinal, este é assunto simples se ficarmos somente nesse lado da moeda dos prazeres da maternidade/fraternidade. Tornemos isto mais interessante, vamos para o outro lado, o que fede a bosta de bebê.

Obviamente, como eu, você também deve ter encontrado pessoas e seus desejos maternais, ou até mesmo seja um destes individuos. Te ponho a seguinte questão: Se tem tanta vontade de dedicar o resto da sua vida a amar e cuidar de alguém, porque então não adotar?

Pausa Dramatica. Os olhares se desconcertam e um comichão nas mãos as tornam inquietas. Daí um outro discurso defensivo aos valores da típica família brasileira.

– Não, eu adoraria adotar, até pensei no assunto – diz ela. – Mas quero ter a oportunidade de gerar meu filho, quero que tenha o meu sangue.

– Ninguém está lhe impondo opções. Muito bem pode gerar como também adotar.

– Verdade – diz ela sem argumento.

– Então, por que não adotar?

Costumo não me aprofundar muito depois que essa pergunta é respondida. Na realidade ela já diz muito do que preciso saber. Durante anos fiz a mesma pergunta a dezena, centena de outras pessoas. “porque não adotar?”

Os olhos dizem tudo.

“Porque não. Porque não vou amar como se fosse meu. Porque tem de ser meu, meu sangue. Sangue é o que importa. Criança adotada é cheia de defeito. Tem sangue ruim, não serve para mim. Quando cresce vira tudo mal educado e ingrato. ”

Os olhos dizem tudo.

Para raciocinar melhor sobre questões sobre esse tipo costumo fazer algumas analogias, substituir objetos e pessoas, até mesmo contextos e cenários diferente, para que assim eu possa enxergar sem alguns conceitos pré fabricados.

Imagine comigo a seguinte situação.

Você e eu somos amigos. Um dia eu lhe digo:

– Ai, me sinto tão sozinho, queria uma companhia.

Você me diz:

– Porque você não arranja um bichinho? Eu li uma matéria dias atrás…blá,blá,blá

– Boa ideia! – Digo eu – amanhã vou a um pet shop e vou comprar o mais lindo que tiver.

Você fica um pouco consternado(a) porque sabe que existe no bairro um canil onde todos os dias cães abandonado são levados. Já teve a oportunidade de ir até lá e até mesmo adotou um cãozinho “vira-lata” muito bonzinho e carinhoso. Você me recomenda fazer o mesmo.

– Ah, mas eu quero um de raça, um bonito. Acho o Pug uma raça linda, são pequenos e tão meigos.

Se você acha que fiz a associação errada comparando crianças com cães, tente enxergar melhor as que moram na rua, dormindo debaixo de viadutos como cães, lutando umas contra as outras para sobreviver, as vezes atacando outras pessoas, roubando-as, como um cão que abocanha e corre com um pedaço de carne.

Quando capturados, são levados para canis humanos.

Quem já foi a um canil ou orfanato vai encontrar o mesmo comportamento que seus hospedes. No início um certo ar hostil e desconfiado, mas com o tempo o medo é substituído pela carência. Você aproxima as mãos até a grade e muitas caudas começam a se abanar ainda ressabiadas. Um suave perfume de esperança paira. Então o silencio é rompido por uma fala:

– Tia, eu posso ir para casa com você?

Nenhuma boca precisa dizer o que no íntimo podemos escutar. O olhar expressa a dor de um coração. Cão ou criança, não importa. A necessidade de carinho transita entre as espécies.

***

No farol, jogando pequenos limões num veloz movimento dos frágeis braços.

O hábil malabarista luta contra os segundos para proporcionar ao público um pouco de entretenimento em troca de alguns centavos. São pouco maiores que a borda da janela do carro esse lúdicos circenses. O rosto pintado de branco e vermelho imitando o sorriso alegre de um palhaço, tem o peso da tristeza. O sinal abre, nada mais importa. Moedas voam entre os pingos de chuva e o pão do dia está ganho.

Nesse mundo não há espaço para desejos.

 

 

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