Onde encontrei Deus

A verdade? Eu nunca acreditei na existência de Deus – pelo menos não nos modos tradicionais de crer. Um bom senhor sentado num trono de mármore, rodeado de arcanjos e querubins, flutuando em nuvens tão brancas quanto o mais puro algodão, num êxtase eterno. Isto estava para mim como o coelho da pascoa, Papai Noel ou o Mickey Mouse. Pura fantasia insustentável.

Claro que havia “vontade” de crer, aceitar que somos a imagem e semelhança de um ser misterioso que nos criou com o único propósito de adora-lo. Mas só a vontade não o tornava mais reais. Pelo contrário, minha cabeça tornou-se uma confusão sem precedentes. Fechar os olhos e orar pedindo um sinal divino fora durante muito tempo minha única obsessão, mesmo que fosse um “oi, tudo bom?” Vindo do além seria suficiente para me convencer eu há outro plano. Mas o que se seguia eram horas de silencio e solidão. “Talvez estivesse fazendo algo errado”, pensava enquanto me empenhava em novas orações e rituais religiosos. Acredito eu que se a bíblia pedisse um sacrifício humano, eu o teria feito de bom grado.

Crescer no seio da igreja cristã, ser filho de um católico e uma protestante, participar do coral nas noites de natal e renunciar horas da própria vida orando não foram o suficiente para responder as perguntas que me rondavam. Decidi não acreditar, num último momento de raiva, virei minhas costas para Deus. Na minha inocência, achei que assim ele voltaria seus olhos furiosos sobre mim. Mas nem Ele ou Diabo se manifestaram.

**

Um bom tempo de calmaria decorreu na minha vida adolescente. Sentia-me aquele da turma que apareceu com um cigarro e o fuma atrás do muro da escola sob o olhar atento dos outros colegas sob um misto de admiração e medo. A única diferença era que em vez de cigarro era o ateísmo.

“Você acredita em Deus?”

“Não, eu sou Ateu.”

“Nossa, não tem medo de ir para o inferno?”

“O inferno também não existe, nem o diabo, nem os anjos e nem vida após a morte. Aqui é o ponto final.”

E os rostos se horrorizavam enquanto eu desfiava um véu acusações céticas sobre eles. Vez ou outra, alguém se afastava e nunca mais falava comigo. Logo o boato do “menino que não acreditava em Deus” começou a correr pela escola, depois pelo bairro e logo, pela cidade toda, que não era lá grande coisa, mas olhava-me pelo rabo do olho como se fosse o próprio anticristo. Até meus amigos foram proibidos de andar comigo.

O assunto veio à tona na minha família quando através de uma professora meus pais souberam do corrido. Povo fofoqueiro. Meus pais, porém, não comentaram o assunto e por assim foi deixado. Mas no fundo eu sabia, eles não me viam mais como filho. Eu era outra coisa, era uma paria, um tocado pelo demônio mesmo que ninguém o dissesse, era como todos me viam. Imagino que em outros tempos, no centro da cidade, diante da igreja católica, aguardando alguém acender a fogueira, estaria eu, amarado a um toco como um feiticeiro.

Um dia um homem veio à minha casa. Eu o conhecia. Era o pastor da igreja.

Ficou horas conversando com minha mãe enquanto eu me isolava na varanda, pensando na confusão que havia me metido por não acreditar em Deus. Talvez fosse Ele me dando o troco, enviando a retaliação através daquele “homem santo” cheirando a loção barata.

“Podemos conversar? ” Fui assaltado pela suave voz do pregador. Ele mais lembrava um médico. Usa óculos de aro e o cabelo parecia ter sido aparado a poucos.

“Sim, claro” Eu me sentia constrangido.

 Passamos a tarde toda sentada no banco da varanda, conversando sobre tudo o que eu imaginava que ele havia vindo fazer: Tentar salvar minha alma. Pobre homem, como foi perseverante. Mesmo assim, nada que ele dissesse conseguiria me trazer de volta para os preceitos cristãos. Muitas das dúvidas não me foram respondidas da forma esperada e a dúvida era a divisão entre mim e Deus e o pastor não conseguiria construir a ponte com meia dúzia de palavras chorosas sobre “Os Mistérios de Deus”. Por fim ele recuou. A ofensiva não estava funcionando e ele tentou outra abordagem.

“Vejo que você é um rapaz perspicaz”, disse ele devolvendo a bíblia para a pasta que carregava consigo. Apoiou os braços sobre os joelhos e tirou os óculos, ele era um homem bonito sem eles. “Na realidade, eu também estou curioso. Se você não acredita em Deus, no que acredita então? ”

Como esmagado por uma avalanche, eu não tive reação para responder a aquela pergunta. Gaguejei algumas palavras, mas não tinha resposta para aquela pergunta. Minh atenção voltou-se para outra coisa agora. Preocupei-me tanto com a “inexistência” que me esqueci da parte mais complicada, a procura da “cresça”. “No que você acredita?” o eco reverberou dentro do oco que havia dentro de mim. O som daquela pergunta não me deixou dormir por dias.

O assunto desapareceu da boca das mexeriqueiras, mas dentro de mim havia sussurros mais assustadores que os demônios do inferno. Eles zombavam de mim, queriam saber no que eu acreditava, qual era o sentido de estar ali. Meus amigos me foram devolvidos, mas um amargo sentimento de solidão me seguiria por muitos anos, senão, pela vida inteira.

A pior solidão é a de não saber quem somos.

***

Ache que seria fácil começar a falar sobre o budismo. Vejo que estava enganado.

O budismo me ajudou a fazer as pazes com Deus. Irônico. Do meu ponto de vista atual, não existe alguém que se não magoe e que se enfureça quando o questiono, ou refuto, a existência de deus. Mas pedir-lhe perdão é como pedir desculpa a uma pedra por chuta-la, inutil.

Não o faço pelo simples prazer de desmentir a existência Dele. Hoje o faço em busca de pistas que me aproxime mais dessa forma divina. É horrível acordar todos os dias e não saber nada sobre si e achar que somos o fruto de um acaso, em contrapartida, não consigo criar dentro de mim um sentimento artificial. Preciso de provas, preciso de conhecimento. “Conhecerás a verdade e ela vós libertará”.

Depois de muito peregrinar pela vida tentando preencher esse vazio que havia dentro de mim depois que removi deuses falsos do coração, descobri que poucas religiões, fés e cresças me revelavam algo consistente sobre a existência de um ser, ou algo, divino.

Quando finalmente desistia dessa procura, uma procura que levara inúmeros intelectuais até um fim triste e vazio, eu me deparei com esta figura engraçada sentada sobre as pernas, debaixo dos galhos de uma figueira, completamente adormecido – ou pelo menos achava eu estrar adormecido. Sua feição era serena e imperturbável. Parecia uma estátua rica em detalhes suaves, esculpida na mais rígida rocha.

Talvez você já tenha ouvido falar dele. Possivelmente pela alcunha que o mundo veio a conhecer a mais de 600 A.C.

Seu nome é Buda.

***

Enquanto outras religiões nos dão uma divindade distante e intangível, o budismo nos apresentam a outra concepção de divino que está ao nosso redor e, especialmente, dentro de nós. “Deus” está em tudo, no pipoqueiro, no gari, na moça do caixa, em você, no gato que dorme sobre a minha mesa, as flores que ganhei de uma amiga, na pedra que chutei no parágrafo acima, no ar, nas partículas… Deus é onisciente porque está em cada coisa ao nosso redor, fluindo como energia viva. Deus é a pura existência.

Quando me foi apresentada essa questão, comecei a enxergar o mundo de outro modo quase que instantemente, como se tudo mudasse de cor e forma, tomando um brilho profundo e revigorante. Num instante havia o abismo, noutro, o firmamento.

Eu, tolo, procurei nos céus o que estava na terra, na partícula mais ínfima de uma formiga.

Não estou tentando puxar a sardinha para o budismo e desmerecer outras religiões – sendo que o budismo está mais para ciência da alma – mas o que quero dizer é que precisamos desconstruir deus como ele nós foi apresentado e começar a conhece-lo realmente e a unica forma de faze-lo é aprendendo mais sobre si e as outras pessoas. Todos somos manifestações do divino.

***

Eu poderia ficar aqui escrevendo, escrevendo e escrevendo sobre o budismo e como ele trouxe paz e novas perturbações para o meu coração, mas não vou, pelo menos, não por agora. Pretendo falar mais sobre a minha experiência sobre o budismo em breve, em textos mais curtos. Mas quero que entenda uma coisa, dizer que não acredita em algo é extremamente fácil, mas procurar cresças concisas e verdadeiras é algo árduo e precisamos passar por isto.

Tenha fé.

Namastê.

 

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