Sobre Como Amar

Quanto mais aprendo, menos sei sobre mim.

Talvez essa seja a única certeza que obtive nos últimos anos. Tal qual Sócrates supôs ao dizer: tudo sei que nada sei. O conhecimento só nos prova que estamos muito longe de formar ideias imutáveis sobre qualquer assunto, seja ele qual for, e que aquele que se atreve a dizer que conhece a essência de algum saber é tolo e assim morrera.

Dito isso, gostaria de começar dizendo que andei meditando sobre muitos assuntos, que espero dividir aqui com aqueles que se dispuserem a lê-lo, mas um deles em especial, hora ou outra citado em algum texto meu, o amor é um dos meus temas preferidos. Se há algo que me intriga e me move numa procura insaciável este é o amor.

Sei que em dados momentos da minha vida essa busca por respostas se tornou uma obsessão tão grande que não havia outro pensamento em minha cabeça do que senão o porquê de amarmos como amamos.

Felizmente me deparei com um excelente livro. We: A Chave da Psicologia do Amor Romântico, obra do psicanalista Robert A. Johnson, que através da visão Junguiana, analisa e nos explica o porquê de amarmos como amamos – minha cruel dúvida.

Sempre suspeitei de um padrão. Achava incrível, quase em suma, termos nós passado pelos mesmos rituais do amor. Primeiro amor, almas gêmeas, primeiro fim de relacionamento, primeira fossa, primeiro amor não correspondido, primeiro crush e assim por diante.

A forma como amamos é algo tão coletivo e previsível em alguns casos que sempre suspeitei que havia alguma coisa programada, mesmo quando só tinha meus 18 anos e era um garoto ingênuo vivendo paixões avassaladoras.

Muito do que imaginava se mostrou idêntico ao que o livro de Robert A. Johnson nos demonstra através da análise do conto de Tristão e Isolda, e até o fim do último capitulo já havia concluído que do amor eu sabia muito pouco, quase nada. Que esse sentimento que vinha me conduzindo por quase uma década era uma triste miragem.

Como a maior parte das pessoas, eu também me apaixonei. Poderia escrever um livro somente descrevendo as tantas aventuras que vive em nome do amor. Um conto mais interessante do que o outro, onde momentos decisivos e tramas mirabolantes deram asas a sentimentos que nunca até então havia sentido. Tamanho fora meu empenho em viver minhas histórias de amor que em dado momento larguei tudo e mudei-me para o sul do país em busca de uma grande paixão. Mas não importa quão grande fosse o sentimento ou o empenho para vive-los, todos tiveram seu fim, trágicos ou não.

Isto me perturbou profundamente.

Porque os relacionamentos terminavam, mesmo tentando de formas diferentes, ainda assim, todos chegavam ao final? Existiria somente nos contos e novelas o final feliz? Não poderia eu um dia “viver feliz para sempre”?

Está era minha angustia.

Não somente através da psicanalise de Jung e do livro de Johnson, que tanto me esclareceu, mas também através da filosofia milenar do budismo é que tive minhas primeiras respostas sobre essa falha na compreensão do que realmente é o amor.

Para compreender o que de fato é o amor, temos de entende-lo de dois modos. Romanticamente e genuinamente.

A ideia romântica do amor já é uma costumas amiga. Convivemos com ela desde os primeiros anos de nossas vidas. Ela está em toda parte; nos desenhos, nas novelas, nos filmes, na publicidade… Quem de nós não assistiu algumas dezenas de vezes o filme “Meu Primeiro Amor” ou “A Lagoa Azul” e ainda mesmo “Titanic”? Todos, em seu tempo, cresceram rodeados por estes enredos. A história de duas pessoas que levam vidas comuns e sem sentido que em dado momento encontram-se e passam a completar uma a outra. Almas gêmeas guiadas pelo destino que se encontram por acaso e vivem lindos romances, ora com fim feliz, ora não.

E como somos ensinados a acreditar em algum Deus, também aprendemos a acreditar no amor, que somente através dele encontraremos o sentido de nossas vidas. Isto não deixa de ser verdade, mas há muitos meios de viver o amor e a forma romântica e trágica é uma delas.

O amor romântico em suma é moldado em nossas fantasias infantis dos contos de fada, do faz de conta. Meninos se tornam príncipes, valentes e fortes, meninas doces princesas em busca de proteção. Sozinhos o mundo é vazio, juntos encontram o sentido de existir. E assim crescemos até tornarmos adultos ansiosos por alguém que mude nossas vidas, que valha a pena trocar o status do facebook, alguém que passe a noite em claro trocando mensagens de texto ridículas. Alguém que faça a vida valer a pena além do que conseguimos faze-lo. Me foi ensinado que “amar é encontrar alguém que ME faça feliz”.

Vivemos numa sociedade capitalista, onde cada um visa seu próprio bem-estar. Como qualquer outra coisa, o amor se tornou um bem de consumo. Quando nos envolvemos numa relação afetiva buscamos alguém que supra com nossas necessidades afetivas, nunca nos apaixonamos pelas pessoas que gostam de nós, nos apaixonamos por que gostamos. E como fazemos essa diferenciação? Através de nossas projeções.

Quando conhecemos alguém essa pessoa se torna alvo de projeções do nosso subconsciente, não enxergamos uma pessoa, enxergamos uma parede branca onde podemos colocar nossas expectativas e desejos. O problema é quando, com o passar do tempo, o que projetamos se choca contra a verdadeira personalidade que habita aquela pessoa e temos a triste constatação de que “nos enganamos”. Passamos o tempo todos nos enganando porque não queremos ou não conseguimos enxergar a verdadeira forma do mundo ao nosso redor tão focado estamos em nossas fantasias.

Quem melhor do que eu para dizer a alguém o que quero?

Ninguém pode me conhecer melhor do que eu mesmo, caso isso ocorra existe um problema em algum lugar. Antes de amar alguém deveríamos ter uma firme compreensão de nós mesmos. Essa compreensão é o que muito de nos conhecemos por amor próprio.

Quando nos amamos, temos a oportunidade de conhecer a pessoa mais importante em nossas vidas. Entendemos profundamente nossos medos e carências, nossas alegrias e virtudes quando investigamos profundamente essa pessoa que somos em vez de delegar a uma pessoa em especial o poder mediúnico de adivinhar o que precisamos e obriga-la a nos fazer feliz. A maior parte das pessoas que se julgam carentes, com medo da solidão e ansiosas por afeto tem um limitado conhecimento de si mesmo. Isto é péssimo. Porque quando estamos distantes desse “Self”, esse “eu mesmo”, nossa mente busca por compensações e projeta em nossas relações essa deficiência da alma.

“Buscamos em nossos relacionamentos aquilo que não encontramos em nós mesmos”, este insight, esta clareza, me veio à cabeça e fui obrigado a compartilhar com meu companheiro mais que imediatamente.

Vivemos vidas tão simples, tão iguais aos outros, em rotinas maçantes que passamos a querer algo especial, algo que de um sentido especial a nossa existência. Mas ao mesmo tempo passamos tanto tempo em buscas externas, fazendo MBA nisso, curso naquilo, noites em claro em busca de recursos para adquirir bens que prometem nos trazer uma vida feliz, que nos esquecemos ou negligenciamos o autoconhecimento e isto, meu amigo, cobra um preço tremendo no futuro.

Não importa por quanto amores você passar, nada que você tem – emprego fixo, máquina de lavar de última geração, um apartamento, beleza física – nada disto fara de qualquer relacionamento feliz para sempre. Por duas simples e inexoráveis questões. Primeiro, tudo no universo tem um começo, meio e fim. Um simples amor platônico não seria poupado, fosse quem fosse. Segundo, o amor verdadeiro não é algo que fazemos, é algo que flui através de nós. Existia antes de mim, existe agora enquanto escrevo e vai existir por eras, até o fim dos tempos. Você não pode doma-lo a seu bel-prazer, mas simplesmente vive-lo.

Acho que daqui podemos mudar um pouco o assunto e falar do amor genuíno.

Acho que entendemos que precisamos amar a nós mesmo antes de criar expectativas sobre as outras pessoas e que também quando paramos de projetar o que desejamos temos a oportunidade conhecer os outros pelo modo que são e ama-lo por isso. Devemos amar de forma honesta, não esperar que os outros nos faça feliz, mas esperar que sejam felizes. Mesmo que as relações não durem, o amor que sentimos pode continuar. Desejar que seu ex-namorado tenha uma vida prospera e feliz, lembrar dos momentos juntos com ternura em vez de amargura e quem sabe um dia se encontrar por acaso e conversa sobre como a vida vai, é amor genuíno.

Às vezes me pego passeando nas lembranças e me recordo de momentos lindos que passei com cada um dos meus relacionamentos. Amo a todos e sempre em pensamento desejo que sejam felizes e façam alguém feliz como me fizeram, e que se amem acima de tudo, para que a solidão não os faça mal ou os enverede por um caminho de autodestruição.

Não busque nas pessoas um amor que dure para sempre, nem que seja repleto de aventuras e acontecimentos surpreendentes.  O verdadeiro amor não se manifesta como nos filmes, isto é uma ficção. Aprendi que o amor se encontra nas coisas simples da vida. O peso das compras que dividimos, uma porta que seguramos para o outro passar, cuidar do outro quando doentes, ligar perguntando se tudo está bem, um beijo antes de dormir, um abraço ao se encontrar, um puxão de orelhas por estar gastando demais, a liberdade de dizer o que está pensando, um passeio até a padaria, adotar um gatinho, limpar a areia do gatinho, falar de besteiras, cutucar um ao outro no facebook, viajar juntos, obrigar o outro a ir ao hospital, vigiar o horário dos remédios, dizer que “tudo vai ficar bem”, compartilhar um momento difícil, ser meu melhor amigo…

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