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Eu, Fotografo!

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Um Pôr-Do-Sol

Dias atrás esbarrei com um velho amigo, desses que emprestamos a confiança de um conselho ocasional, mesmo que esse não seja requerido. Mas que vá! Lá estávamos, olho no olho. O vidro embasado pela nevoa morna do banho quente. A face lambuzada de creme barbear.

Um fio rubro descendo pelo lado esquerdo do pescoço. “quase me degolei com essa porra de barbeador”, meio irritado com a presa empregada que quase me custou um naco a menos de pele no pescoço. Flagro-me nos olhos castanhos de expressão cansada que, outrora, virão tantas coisas belas e pérfidas pela vida.

Não que tenha sido longa ate aquele momento, mas vamos ser francos, vivemos tanto em tão pouco tempo que às vezes tudo tem lá o seu sabor secular.

E estávamos, frente a frente, presente e passado. Sangrando a goela num fio indecente de realidade. Eu nunca me senti tão vivo. Tão belo. Tão ironicamente feliz como agora. Nessa satisfação meio torpe esqueço à hora e o compromisso. “O que era mesmo?”. E lembranças assaltam-me num segundo de introspecção. Me pego a sorri por coisas tolas e lindas.

Pessoas, amigos, irmãos. Um abraço no meio da noite acordando-me para dentro de um sonho. O amor, em tantas formas e texturas, sabores multicoloridos de um céu azul. E confessarei que ouço sinos de viva la vida tocarem quando o sol se deita por entre montanhas que horas eu galguei. E tanto me pergunto se alguém às vezes parou de subir e virou-se e olhou mais atentamente aquela aquarela com mesmo amor que olha o rosto de quem ama. Um por do sol é único, um sorriso também.

Por isso coleciono fotografias, quase instintivamente, do por do sol. E se possível, quando puderes, me presenteei com um por do sol. Ou um sorriso. Mesmo que não conhecendo outra forma de sorrir do que a fajuta que tenho tido a necessidade de enfeitar um retrato aqui outro acolá, admiro os sorrisos. Safados e acanhados. De olhos semi-fechados ou cegos. Com lagrimas ou sem motivo. Somente sorriso.

E agora estou sorrindo.  Agora sou dia radioso.

– nunca se esqueça de sorrir meu amigo – digo a mim mesmo sem medo de ser dado como louco, olhando para o individuo semi nú do outro lado do reflexo.

E como pescado de volta pra margem do tempo, quase escasso, lembrei-me do compromisso e do atraso empregado para perceber algo tão simples. Completei o resto do barbeado. Colei um esparadrapo sobre o corte e fui para vida, deixando no embaçado espelho o desenho feito com a ponta do indicado de um rosto feliz. “Molecagem de menino”.