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Morto!

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“Eu vou morrer”, era a única coisa que eu conseguia pensar naquele instante.

Todos estavam sentados e aturdidos por causa daquela cena. O tempo ficara imóvel e ate mesmo o som irritante das suplicas daquele idiota estendido no chão, suplicando pela própria vida parecia ter perdido seu sentido. Eu só podia ouvir o meu coração batendo acelerado enquanto o cano da arma se estendia do braço firmemente em direção a minha testa. Sim, isso aconteceu a muito tempo atrás, mas eu ainda me lembro bem de ter morrido aquele dia.

De uma forma resumida, houve um roubo na radio onde eu trabalhei no Rio Grande do Sul. Esse fato aconteceu durante o dia, quando muitas pessoas circulavam pela radio, poderia ser qualquer um. Mas o diretor teria de culpar alguém, então porque não garoto que havia pedido demissão aquele dia?

Ele sempre guardara uma pistola e eu sabia. Nunca imaginei que levaria a serio aquilo, usar aquela arma. No entanto me enganei e ela estava apontada para mim. Todos os funcionários da radio estava desesperados, diziam não saber de dinheiro algum, mas ele não se importava, desejava descobrir quem o havia roubado e eu era o principal suspeito.

Eu não havia pegado o dinheiro e desconfiava firmemente que ele nunca existira, era somente um truque frustrado para me incriminar e se vingar por deixa-lo na mão logo na hora que mais precisava de mim.

Somente uma coisa passava pela minha cabeça. O medo, o terror de morrer. Eu entrei em transe e não consigo me lembrar do que aconteceu entre aqueles minutos a não ser a sensação de estar morrendo aos poucos.

Ele abaixou a arma. Desistira daquele interrogatório e todos foram embora, nunca mais o vi, muito menos a pistola, mesmo assim, até hoje sinto ter morrido aquele dia e ter voltado a vida de uma forma diferente. Naquele dia, descobrir que todos estávamos mortos e vivos ao mesmo tempo, por isso, cada segundo é único. Nossa razão mortal existe e vivemos esquecendo isso em troca de uma falsa ilusão de imortalidade. Precisei da culatra fria encostada na minha cabeça para perceber isso. Tenho uma arma apontada para cabeça todos os dias, a qualquer momento ela pode disparar e nada é inevitável. Por isso aproveito a vida intensamente, amo intensamente e existo intensamente.

Lembre-se disso quando sentir um sonho morrendo. É o gatilho sendo apertado cada vez mais rapido sem você perceber e quando todos os sonhos sumirem, você também ira desaparecer. Um tiro certeiro e sem volta.

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Minha Mãe Me Deixou Sofrer

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Uma das coisas que nós torna únicos entre os animais é a capacidade de sentir amor. Claro, o seu labrador pode alegrar-se ao te ver, mas isso não se compara a anos de dedicação cuidando de alguém idoso, ou o casamento de cinquenta anos, ou também o desejo inconsciente de salvar uma vida.

Toda via, esse sentimento nos faz cometer erros gravíssimos. Aceitáveis a um certo, mas que pode acarretar o arrependimento de ter se dedicado tanto a alguém e muito pouco à nós.

Sou o tipo de pessoa que ouve inúmeros relatos de vida. Um baú de segredos, como um padre no confessionário, só que não digo ao outros para rezar dez ave-marias e mil pais-nossos. Tento somente ouvir. Por que ouvindo posso ajudar muito mais do que especulando o por que daquilo estar acontecendo.

Recentemente, uma colega procurou-me para relatar a amargura de sempre fazer tudo para pelos filhos, cuidar, educar e sempre corrigir, e mesmo assim, não consegue torna-los as pessoas que tanto idealiza.

– Você precisa deixar que elas se ferrem na vida – ela olhou-me como se eu houvesse dito alguma atrocidade. Resolvi então explicar.

– Quando eu tinha 19 anos, mudei-me para o Rio Grande do Sul. Não tinha nada mais que 500 reais no bolso, uma passagem de avião e uma mala cheia de roupas. Mas queria me aventurar, viver a vida, amar intensamente alguém. Queria mudar minha vida. Vivendo aquela situação, um dos filhos preparando-se para voar para o outro canta do país, minha mãe não pode fazer nada mais do que aguentar dentro de si o pedido para que eu ficasse e deixar que eu fosse embora.

Alem das aventuras, amores e alegrias, passei por inúmeras situações pelas quais me perguntei por que ela havia me deixado ir embora e não me impediu de cometer aquela loucura. A resposta era clara, eu precisava viver a vida, me ferrar legal e depois tirar o melhor de tudo.

Quando amamos alguém, queremos protegê-los do mundo. Criar um redoma de vidro em que possam ser felizes para sempre, até mesmo renegando a nossa própria alegria para vê-los seguros. Isso é errado.

Proteger é torná-las fortes, indestrutíveis e capazes de se cuidarem. Dar-lhes uma dose de dor para saber quando identificá-la e manter-se longe dela.

Minha amiga começou enxergar melhor o quadro de sua vida. De como havia passado muito tempo superprotegendo as filhas e deixando que a sua vida se deteriorar junto com seus sonhos que logo não se sentiu mais confusa e perdida. Gostei de ajuda-la com um pouco da minha experiência de vida, de como absorvemos tantas coisas e pouco usamos para nosso ou para o beneficio dos outros.

E lembrar é sempre bom.

Lunar (2009)

 

Uma vez eu tive de fugir.

Esconder-me dos problemas e temores à milhas de distancia de tudo o que eu conhecia e achava familiar. Pensava em começar uma vida nova, diferente de tudo o que havia vivido e levado a todos os erros cometidos até então. Durante dois anos, eu estive sozinho, boa parte do tempo, física e mentalmente.Pensava ter chegado a um ponto que tudo estava bem. Um grande erro.

Um dia eu o encontrei (ou ele me encontrará?). Estava sentado no outro lado da sala. Observando-me. Pensava ter deixado-o para trás junto de tudo mais. No entanto, ali estava ele. Com a mesma aparência de anos atrás. A única pessoa que me conhecia mais que a mim mesmo. Que estivera em todos os momentos da minha vida. Alguém a quem ame, odiei, temi e tentei me livrar e fugir. Alguém quem eu não poderia suportar olhar nos olhos outra vez.

Mas é impossível fugir de si, não é mesmo?

Quantas vezes quis estar longe de mim mesmo. Quantas vezes fingir não me conhecer. Quantas ocasiões ignorei minhas decepções próprias. Quantos momentos tive medo de quem sou.

Acho que o filme “Lunar” reflete esse alto-conhecimento de forma mais violenta do que nos é proposto. Por que durante o tempo que residi no Rio Grande do Sul, inúmeras vezes fui obrigar a enclausurar-me dentro de um determinado sentimento de solidão e aprender comigo mesmo, conhecer e descobrir coisas ignorantes sobre quem eu era e o quanto mais poderia seguir em frente.

O contraste do universo e a lua, e toda a sua parte obscura e silenciosa, reflete esse lado sombrio e secreto da nossa alma. Conhecer-se é dominar uma força ilimitável de sabedoria, não só sua, mas talvez do universo. Somos mais capazes do que imaginamos.

Tentei uma vez abandonar quem eu era, mas não pude. Então, resolvi me sentar com “ele” e resolver essas diferenças. Tornar meu maior inimigo no melhor aliado.

Sinopse

Sam Bell (Sam Rockwell) é um astronauta que cumpre uma missão de três anos na Lua, em uma base instalada pela Lunar Industries. Sua função é extrair do solo e enviar regularmente à Terra uma substância que ajuda a renovar a energia do planeta. Sam tem apenas a companhia do computador GERTY (Kevin Spacey) e está ansioso para completar o trabalho, o que ocorrerá dentro de duas semanas, quando um novo funcionário virá substituí-lo. Só que, repentinamente, Sam começa a delirar e sofre um acidente. A partir de então ele encontra um clone seu dentro da estação lunar.