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Cicatrizes No Meu Rosto

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Não vou mentir. Não tenho me sentido bem ultimamente.

Minhas costas doem. Meus pés doem. Minha alma doe.

“Talvez um bom banho quente ajude” penso. Vou o banheiro e sento-me cansadamente dentro do box e debaixo do chuveiro, deixo que a água corra para onde quiser, contanto que acalente minhas dores. De fato é algo maravilhoso ficar no escuro, ouvindo o som da água cair e imaginar que estou numa pequena ilha do Caribé, numa noite sem lua, banhando-me na torrente de uma catarata. Até mesmo posso ouvir os grilos, o vento e as estrelas. E por um segundo, toda dor mergulha no fundo do lago e desaparece. Tudo aparentemente está bem.

Mas aquele segundo passa e acordo dentro do banheiro, sozinho, sendo absorvido pela escuridão. A água parece um pouco fria e meu corpo se contrai aborrecido. Como gostaria de estar no Caribé.

***

“Onde estariam todos?”.

A casa parece um mausoléu assombrado. Janelas e portas trancadas. “Onde estariam todos?” me pergunto novamente olhando cautelosamente entre os quartos, por trás das portas, debaixo das camas. Olhei para o tento. Somente aranhas e nada mais.

Um bilhete era a única pista dos seus paradeiros. Um churrasco, dizia ali. Todos convidados menos eu. Não era de se surpreender. Nos últimos dias todas as pessoas procuram evitar permanecer no mesmo ressinto em que estou, e os desavisados, que procuram puxar assunto acabam por se arrepender da empreitada, olhando para os lados como se procurando ajuda para escapar daquela conversa chata e maçante sobre como tenho me sentido.

Então decidi por não sentir nada perto de ninguém. Ter sentimentos é o mesmo que ter cicatrizes cravadas no rosto. Você se torna uma paria nesta sociedade de aparências fúteis.

Mas, felizmente, estou sozinho. Posso finalmente “sentir para fora” sem me preocupar se o cheiro que exalo causara ascos em alguém. A solidão não é de todo mal afinal de contas.

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Morto e Esquartejado

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Debaixo da cama havia alguns papeis coloridos manchados pelo tempo, guardados sobre a pressão do colchão e envelhecidos pela umidade.

Tinha me esquecido que os tivera a muito guardado-os ali para a eventual necessidade de um dia embrulhar algo rápido para alguma festinha surpresa. Curioso como herdamos antigos hábitos, esse fora passado de pais para filhos durante gerações na minha família, no entanto, sei que não é segredo de família.

“Mas e agora, o que posso fazer com eles?” não havia alternativa, “tenho que colocá-los na lixeira também!”.

Fizeram companhia a outros objetos no fundo de um saco preto. E no fundo me sentia como um melindroso assassino matando cada pedaço daqueles ali dentro, esquartejando sentimentos. Até cogitei esperar o anoitecer para desová-los em outra lixeira que não fosse a minha. Caso alguém encontrasse algo, não queria ser ligado a aquelas coisas velhas e inúteis.

Um boné com a aba quebrada, revistas antigas de dieta, livros da programação da TV do ano passado, alguns botões, fotos de ex namorados, flores secas, um beijo ressequido, amigos ausentes, lembranças ruins, dias tristes, saudades…

Juntei tudo e amarrei a boca do saco e joguei fora. Havia aquela sensação de vazio. “Quanto espaço essas coisas ocupava, não é mesmo?” e logo, o sentimento de alivio e vida arejada preencheu o ar viciado de perfume e silencio. Agora eu poderia acomodar bem o futuro onde quisesse. Pude ver o rosto tímido de alguém se aproximar, maravilhado com minha vida nova. Sorria-me feliz e eu sabia que amaria aquele sorriso no futuro.

Mostrei-lhe onde colocaria meus projetos, próximo a uma janela de frente para o céu. Logo a esquerda deixaria um espaço vago para a surpresa, e o restante poderia ficar onde estava – talvez mude aquela quina que tanto machuca meu mindinho de lugar. No mais, era só a perfeição!

– Você esta feliz? – a pessoa indagou-me.

– Bem, admito que foi difícil livrar-me de tanta coisa de uma só vez. – Um suspiro atravessou-me e olhei em volta – Tudo aquilo era o meu mundo, sabe, eu vivi cada momento daqueles!

– E agora? – Confrontou-me novamente a pessoa de lindo sorriso.

– Agora que os matei, posso seguir em frente!

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O Trapezista do Amanhecer

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Hoje quando acordei, antes mesmo de pensar, “o que farei hoje?”, tive meu momento de breve reflexão sobre a vida no seu contexto maior e aquela conclusão de que as coisas são mais loucas que imaginamos veio como um soco no estomago.

Num instante estamos rindo, noutro chorando amargamente a perda de alguém que tanto nos fez bem somente pelo fato de existir de uma forma totalmente diferente do que qualquer outra pessoa conseguiria em inúmeras vidas. Alguém que sempre teve o cuidado laborioso de nos fazer rir, roubando risos com encantadoras firulas. Um verdadeiro palhaço.

É difícil perder alguém e me pego pensando quando chegar o dia que as pessoas começarem a partir sem disser adeus! Eu as perdoaria caso isso viesse acontecer, eu as condenaria por deixar-me sem ao menos disser que um dia nos encontraríamos para outra rodada de baboseiras e cantigas desafinadas? Ou talvez me condenasse por não ter dito a tempo que eu a amava muito e tudo seria mais difícil sem ela por perto para me disser o que fazer quando o dia nascesse nublado e sombrio?

Enquanto ainda estava sentado, com o rosto amarrotado pela noite mal dormida eu me perguntei quão difícil seria aprender a viver sem alguém que amo. Condenei-me por amar tantas pessoas e respirei fundo o ar frio da manhã que infiltrava pela fresta da janela.

Às vezes pode ser duro segurar as pontas, ser forte quando perdemos quem amamos. Mas sempre tenha outra pessoa para amar também e segurar sua mão quando a corda bamba balançar e você sentir que o chão esta próximo e a queda é concreta.

O amor nunca morre.

Um Sonho Perdido!

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– Sinto muito, acho que esse sonho não se realizara.

Ela estava diante de mim com um sorriso um tanto quanto consolador, nem ao menos percebi ela se aproximar. Segurava algumas folhas entre as mãos. Seus olhos estavam carregados de desculpas por trás dos óculos de aro. Não entendia o seu pedido, não tivera culpa de nada. Era uma secretaria, somente isso.

Passaram-se apenas alguns minutos desde o momento que havia me sentado na sala de espera do escritório. Um lugar amplo com poltronas brancas, quadro abstratos e sem sentido por todas as partes, uma mesinha de vidro e algumas revistas antigas tanto quanto amassadas. A secretaria prostrava-se diante da minha cabeça. Eu estava levemente reclinado, apoiando minha cabeça sobre os braços apoiados sobre as pernas que não se apoiavam em ninguém. Quando a levantei tive a impressão de que a saia marrom não combinava em nada com o terninho preto. Moda nunca foi meu forte, mas ate mesmo eu sabia quando deveria pegar leve com os tons. Voltei minha atenção para seu rosto. Apesar da maquiagem excessiva, pude perceber as formas de suas maçãs salientemente erguidas pelo sorriso acolhedor. Era linda, não poderia se negar e talvez ela não soubesse.

– O Senhor, me entende? – Voltou a disser a secretaria.

– Sim, eu entendo – Minha voz soou mais grave do que o habitual, parecendo até mesmo ríspida enquanto estiva-me sobre a poltrona tentando reanimar os ossos da coluna. Não pude conter o desejo de me espreguiçar diante dela, que continuava a vigiar meus movimentos como se esperasse uma explosão de lagrimas desconsoladamente. Infelizmente, teria por decepcionar aquela alma.

– A desilusão só nos cega por algum tempo. – Eu disse enquanto me levantava e percebi ser mais alto que a secretaria. – Mas depois disso, dessa conclusão, o que podemos fazer?

– Perdão, eu não consigo entender.

– Posso lhe contar sobre sonhos? – Perguntei-lhe.

O rosto da secretaria se contraia numa careta de confusão, mesmo assim parecia algo adorável. Por isso, não lhe dei tempo para o “In dubio pro reo”.

– Sonhos são aventuras, coisas que criamos para fugir da realidade de “somos o que somos”. Algumas pessoas os usam como fantasias, como pilares para sua frase de que “um dia irei realizar meu sonho”. Quando sabemos que “um dia” significa “nunca”. Outras pessoas lutam por sonho e os alcançam, tornando-os reais e de um momento para o outro estão escrevendo as “mil maneiras de vencer na vida”. Bem, ainda temos mais um tipo de pessoa e essa esta parada num escritório, ouvindo de alguém que seu sonho não poderá se concretizar. Ele se sente um pouco consternado por causa disso, como se alguém morresse diante dele, fica um pouco perdido e pensa em não se levantar de onde esta por que não há motivo para continuar. Esta conseguindo me acompanhar? – Sua cabeça balançou de cima para baixo duas vezes. – Certo! Então me diga o que fazer?

Algo ameaçou sair da sua boca levemente aberta, mas novamente não dei-lhe tempo o suficiente para pensar sobre o assunto.

– nada! – Eu disse – Não posso fazer nada alem do que me levantar e lhe contar uma historia de como irei começar a ter novos sonhos, porque é isso que deveríamos fazer quando uma porta se fechar. Quando um amor partir, um amigo morrer, um dia for ruim, quando descobrirmos que não somos bons para algo. Precisamos tentar outro sonho. Não acho que seja o final, talvez um novo começo, uma nova chance ou a verdadeira chance que eu não dei a devida atenção por estar ocupado demais com os meus “um dia”. Enfim, sonhos morrem e outros nascem.

Consultei o relógio e percebi que estava um pouco atrasado para outro compromisso, já tinha passado da minha hora e não havia justificativa para demorar-me mais.

– Bem, tenho de ir. – Peguei meu casaco sobre o braço da poltrona e contornei a secretaria petrificada, caminhando na direção dos elevadores, discando um numero programado no celular e pensando em alguma mentira para disser. – Tem mais alguma informação para mim?

Ela parecia ter acordado de um sonho quando ouviu o som das portas metálicas se abrindo logo atrás dela.

– oh, sim! – Virou-se rapidamente para mim dentro do elevador. As portas do elevador estavam se fechando rapidamente – Mandaremos a sua conta na segunda pela manhã, senhor.