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O Ladrão De Sonhos

 

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Qual o sentido da vida?

Acho que já ouvi essa pergunta mais vezes do que: “É pra levar ou pra comer?”.

E quando é que a gente descobre se é pra levar ou pra comer? Quando vem aquela fome louca que não da pra esperar até chegarmos em casa. Entra numa rua escondida e come aquele sonho delicioso ali mesmo, na calçada. E você se vê pensando, “qual o sentindo da vida, senão prazer de vivê-la?”.

A vida é cheia de regras básicas e naturais. Precisamos delas para viver nesse contexto universal de casualidades. Mas e se pisarmos um pouco fora da linha, levantar a redoma e respirar o ar do lado de fora do aquário, e se pisarmos na grama onde é proibido só pra sentir cócegas nas plantas do pé, será que romper algumas regras nós torna renegados deste mundo?

Imagino como se fosse um jogo ao avesso. Um sonho que comemos antes da hora certa.

Algumas regras existem somente para serem rompidas e dar origem a outras regras, que também serão quebradas e darão luz a novas regrinhas que, nem sabendo ficar de pé ainda, já imaginamos como iremos quebra-las. Por que afinal de contas, só é feliz aquele que passa o dedo no bolo antes do “parabéns pra você”. Mata um dia de trabalho só pra poder caminhar na praia bem cedo. Faz uma tatuagem escondida dos pais. Namora a pessoa mais errada do mundo. Prefere viver mais e preocupar-se menos.

E até pode parecer que estou pregando uma sociedade anárquica, mas o que eu só quero é poder mudar essas regras idiotas, que dizem ser o pilar da nossa sociedade, e colocar outras mais divertidas e honestas. Regras que nós de tempo a mais para viver e menos para sofrer.

Já pensou se todos os políticos que criam nossas leis fossem menos corruptos? Trabalharíamos o justo para viver o justo. Mas claro, somente quem dita as regras podem quebra-las sem sofre sansões por isso, e isso a gente aprende desde pequeno.

Por isso eu vou comer meu sonho antes da hora certa e escondido, para que ninguém o roube de mim o meu direito de ser feliz.

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Um Sonho Perdido!

sonhos

– Sinto muito, acho que esse sonho não se realizara.

Ela estava diante de mim com um sorriso um tanto quanto consolador, nem ao menos percebi ela se aproximar. Segurava algumas folhas entre as mãos. Seus olhos estavam carregados de desculpas por trás dos óculos de aro. Não entendia o seu pedido, não tivera culpa de nada. Era uma secretaria, somente isso.

Passaram-se apenas alguns minutos desde o momento que havia me sentado na sala de espera do escritório. Um lugar amplo com poltronas brancas, quadro abstratos e sem sentido por todas as partes, uma mesinha de vidro e algumas revistas antigas tanto quanto amassadas. A secretaria prostrava-se diante da minha cabeça. Eu estava levemente reclinado, apoiando minha cabeça sobre os braços apoiados sobre as pernas que não se apoiavam em ninguém. Quando a levantei tive a impressão de que a saia marrom não combinava em nada com o terninho preto. Moda nunca foi meu forte, mas ate mesmo eu sabia quando deveria pegar leve com os tons. Voltei minha atenção para seu rosto. Apesar da maquiagem excessiva, pude perceber as formas de suas maçãs salientemente erguidas pelo sorriso acolhedor. Era linda, não poderia se negar e talvez ela não soubesse.

– O Senhor, me entende? – Voltou a disser a secretaria.

– Sim, eu entendo – Minha voz soou mais grave do que o habitual, parecendo até mesmo ríspida enquanto estiva-me sobre a poltrona tentando reanimar os ossos da coluna. Não pude conter o desejo de me espreguiçar diante dela, que continuava a vigiar meus movimentos como se esperasse uma explosão de lagrimas desconsoladamente. Infelizmente, teria por decepcionar aquela alma.

– A desilusão só nos cega por algum tempo. – Eu disse enquanto me levantava e percebi ser mais alto que a secretaria. – Mas depois disso, dessa conclusão, o que podemos fazer?

– Perdão, eu não consigo entender.

– Posso lhe contar sobre sonhos? – Perguntei-lhe.

O rosto da secretaria se contraia numa careta de confusão, mesmo assim parecia algo adorável. Por isso, não lhe dei tempo para o “In dubio pro reo”.

– Sonhos são aventuras, coisas que criamos para fugir da realidade de “somos o que somos”. Algumas pessoas os usam como fantasias, como pilares para sua frase de que “um dia irei realizar meu sonho”. Quando sabemos que “um dia” significa “nunca”. Outras pessoas lutam por sonho e os alcançam, tornando-os reais e de um momento para o outro estão escrevendo as “mil maneiras de vencer na vida”. Bem, ainda temos mais um tipo de pessoa e essa esta parada num escritório, ouvindo de alguém que seu sonho não poderá se concretizar. Ele se sente um pouco consternado por causa disso, como se alguém morresse diante dele, fica um pouco perdido e pensa em não se levantar de onde esta por que não há motivo para continuar. Esta conseguindo me acompanhar? – Sua cabeça balançou de cima para baixo duas vezes. – Certo! Então me diga o que fazer?

Algo ameaçou sair da sua boca levemente aberta, mas novamente não dei-lhe tempo o suficiente para pensar sobre o assunto.

– nada! – Eu disse – Não posso fazer nada alem do que me levantar e lhe contar uma historia de como irei começar a ter novos sonhos, porque é isso que deveríamos fazer quando uma porta se fechar. Quando um amor partir, um amigo morrer, um dia for ruim, quando descobrirmos que não somos bons para algo. Precisamos tentar outro sonho. Não acho que seja o final, talvez um novo começo, uma nova chance ou a verdadeira chance que eu não dei a devida atenção por estar ocupado demais com os meus “um dia”. Enfim, sonhos morrem e outros nascem.

Consultei o relógio e percebi que estava um pouco atrasado para outro compromisso, já tinha passado da minha hora e não havia justificativa para demorar-me mais.

– Bem, tenho de ir. – Peguei meu casaco sobre o braço da poltrona e contornei a secretaria petrificada, caminhando na direção dos elevadores, discando um numero programado no celular e pensando em alguma mentira para disser. – Tem mais alguma informação para mim?

Ela parecia ter acordado de um sonho quando ouviu o som das portas metálicas se abrindo logo atrás dela.

– oh, sim! – Virou-se rapidamente para mim dentro do elevador. As portas do elevador estavam se fechando rapidamente – Mandaremos a sua conta na segunda pela manhã, senhor.