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Venha Comigo…

Vintage Car Couple

Quando lacrei a ultima caixa, precisei sentar-me em algum lugar e recuperar o folego.

“Hoje é dia de mudança!” e está ideia me apavorou. Eu sabia que não haveria volta. As portas estariam trancadas desta vez. A única opção seria sempre seguir em frente.

Ninguém sabe disto, mas tenho muito medo de mudar. Não somente de um apartamento para outro, mas de me tornar outra pessoas, às vezes mais forte, mais determinada. Porque como as mudanças temos de deixar certas coisas para trás. Nunca podemos levar tudo que queremos.

E desta vez deixei muito mais que o meu coração poderia suportar e isso me apavora, porque estarei sozinho. A solidão é algo pesado demais para levar na mudança.

Uma casa nova, paredes verdes e um imenso vazio para ser preenchido. Terei tempo suficiente para imaginar o que outras pessoas viveram lá. Quanto amor e ódio ela abrigou. Aos poucos vou adaptar-me a suas velhas manias de casa nova e nada será mais estranho.

Mas ainda preciso fechar algumas caixas, escolher o que ainda posso levar e se devo mesmo deixar ou leva-lo para sempre.

Cicatrizes No Meu Rosto

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Não vou mentir. Não tenho me sentido bem ultimamente.

Minhas costas doem. Meus pés doem. Minha alma doe.

“Talvez um bom banho quente ajude” penso. Vou o banheiro e sento-me cansadamente dentro do box e debaixo do chuveiro, deixo que a água corra para onde quiser, contanto que acalente minhas dores. De fato é algo maravilhoso ficar no escuro, ouvindo o som da água cair e imaginar que estou numa pequena ilha do Caribé, numa noite sem lua, banhando-me na torrente de uma catarata. Até mesmo posso ouvir os grilos, o vento e as estrelas. E por um segundo, toda dor mergulha no fundo do lago e desaparece. Tudo aparentemente está bem.

Mas aquele segundo passa e acordo dentro do banheiro, sozinho, sendo absorvido pela escuridão. A água parece um pouco fria e meu corpo se contrai aborrecido. Como gostaria de estar no Caribé.

***

“Onde estariam todos?”.

A casa parece um mausoléu assombrado. Janelas e portas trancadas. “Onde estariam todos?” me pergunto novamente olhando cautelosamente entre os quartos, por trás das portas, debaixo das camas. Olhei para o tento. Somente aranhas e nada mais.

Um bilhete era a única pista dos seus paradeiros. Um churrasco, dizia ali. Todos convidados menos eu. Não era de se surpreender. Nos últimos dias todas as pessoas procuram evitar permanecer no mesmo ressinto em que estou, e os desavisados, que procuram puxar assunto acabam por se arrepender da empreitada, olhando para os lados como se procurando ajuda para escapar daquela conversa chata e maçante sobre como tenho me sentido.

Então decidi por não sentir nada perto de ninguém. Ter sentimentos é o mesmo que ter cicatrizes cravadas no rosto. Você se torna uma paria nesta sociedade de aparências fúteis.

Mas, felizmente, estou sozinho. Posso finalmente “sentir para fora” sem me preocupar se o cheiro que exalo causara ascos em alguém. A solidão não é de todo mal afinal de contas.

O Menino Que Não Queria Crescer

 

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Eu estava com medo. Sentia que a qualquer momento meu coração iria parar e morreria quando aquela porta se fechasse. Meus pulmões inflavam-se rapidamente enquanto das profundezas da minha garganta um resmungo melancólico e desesperado explodia de dentro de mim.

Eu estava no pré-colegial, minha mãe se afastava dizendo que logo estaria de volta pra me buscar, que o dia seria ótimo e eu faria muitos amigos. Mas de tudo aquilo a única certeza era que ela estava me deixando, numa sala chega de crianças que eu nunca havia visto antes, aos cuidados de uma mulher que eu não conhecia.

“O que eu fiz de errado? Porque você está me abandonando?”

Ela se foi.

 ***

 E todas as experiências, todos os momentos da minha vida, nenhum me trouxe tanta insegurança ver minha mãe saindo pela porta da sala e ir embora. Horas depois ela havia voltado, e como o sol, me fez voltar a ser feliz. Eu estava perdido e ela estava ali. Quanta saudade havia nascido em poucas horas de angustia.

Mas o tempo leva embora esse medo e você não se sente mais perdido à medida que cresce. Aprende que muito que fará será sozinho. A costuma-se com o fato de que as pessoas se vão – temporário ou definitivamente. E começa a esquecê-las. Não é algo terrível, é um fato natural.

Mas quero disser algo em especial hoje, só porque o dia é especial e encontrei uma velha fotografia.

Estava entre alguns livros, meio mofada pela umidade do quarto que um dia terei de dar um jeito. Era somente um garotinho, de olhos negros e brilhantes, lábios vermelhos como um corte profundo e um tímido sorriso.

Naquela velha capa de agenda, me vi outra vez perdido e com medo.

Medo de envelhecer. Medo de não ter feito o suficiente. Medo de ir embora, ou medo de ficar. Medo de crescer, literalmente e não caber no berço ou caber nos braços que nos embalaria por horas e horas.

Agora estou aqui sentado, olhando para mim mesmo. Queria chorar, mas de saudade por ter encontrado um velho amigo, mas só sei sorrir. Apesar de tudo que passei até hoje, o meu pequeno menino está aqui dentro pra me lembrar que nunca estarei sozinho.

Nunca.